Peso, erro, silêncio e crime.

Mentira. Beijos não curam feridas. O alívio só vem depois que a dor
acaba. Deixar a dor doer. Acender a luz para ver melhor o sangue. Chamar
seu nome bem alto: dor. Abraçá-la mesmo áspera, respirá-la mesmo
pungente. Rasgá-la com os dentes, oferecer o pedaço úmido de saliva a
outra boca que não a sua. Fechar os olhos é reter a dor que não se quer
causar.Descobertas recobertas. E constatações tão suas quando as dúvidas
que você semeia, aquelas mesmas que crescem e lhe estrangulam. Sem
revirar bolsos ou gavetas ou existências, o seu mundo é o que tem a
chave na fechadura; é o que lhe contam, não o que você questiona. Pensa
ser maldade dar espelhos a quem não quer - ou consegue - se enxergar?
Mas a maldade reside no que é feito sem querer. No que não é dito ou
dado. Sorrateira, a mágoa causada pela displicência ocupa os espaços
onde o zelo não chega. O mal está nas pequenas coisas, assim como o bem.
Um tapa carrega mais sinceridade do que a mão suave sobre os cabelos
suados, que perdoa algo sequer entendido. Não ter intenção é soltar a
mão de uma criança enquanto se atravessa a rua movimentada. Displicência
é o ponto de partida do crime. Cuidar é ser grave e urgente nas causas
que doem a si. Porque dor do outro sempre chega depois. É, no mínimo, a
segunda a ser percebida. Quem sabe a última, quando já não há remédio
algum. E a morte é a dor que já não dói mais. É a cicatriz hipertrófica,
a perda da sensibilidade tátil. Pensa mesmo que tudo passa? É outra das
mentiras que lhe induzem ao erro. É mentira também que o tempo apaga.
São apenas fotos guardadas. Cabe a você abrir ou não a caixa. Sejam
lembranças, medos ou dores, qualquer pouco já é muito. Há quantos anos o
"não foi nada" lhe cala? De onde vem esse silêncio devastador? Para
qual lugar inatingível vão todas essas coisas não ditas? Silêncio não
cura, machuca. O tempo não resolve coisa alguma. Deixar acontecer é a
sua opção quando não sabe o que quer. Ou se quer aquilo que já tem. Esse
seu medo é inércia. E aquele monstro que morava embaixo da cama,
existiu? O momento de se descobrir algo é justamente quando se tem medo.
Coragem é isso. Você não pode esperar inimigos reais para então
aprender a se defender. (...) Não há especificação para tudo; não haverá
sempre relógios e calendários. O que dói mais é a surpresa. Perigoso é o
que você nega e cresce longe de seus olhos: criatura matando criador.
Ter medo apenas do feroz é desdenhar a força do manso. Seria como
proteger apenas aquilo que se mostra frágil. Erro. Fragilidade implica
em cuidado: amparado está. O dado por forte é o comumente negligenciado.
Mas o que mais resiste é também o que mais fere ao ser quebrado.
Renata Bezerra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário